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18 de janeiro de 2015

Brasileiro condenado à morte na Indonésia e a arte de gastar vela com defunto ruim

por Sylvio Micelli

Teve repercussão nacional e internacional, nestes últimos dias, a aplicação da pena de morte por fuzilamento ao cidadão brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira. Preso há pouco mais de 10 anos na Indonésia,

Archer foi condenado por tráfico internacional de drogas. Ex-instrutor de voo livre, ele tentou entrar em Jacarta com mais de 13 quilos de cocaína, avaliadas em cerca de 650 mil dólares. O país asiático pune o traficante com pena de morte e Archer não conseguiu escapar, mesmo com os pedidos de clemência feito pelos presidentes Lula, no passado e Dilma Rousseff, mais recentemente e outros tantos espalhados por aí, ONGs, redes sociais. Todos, aliás, cumpriram com sua função social.

Antes de opinar deixo claro ao meu leitor que não tenho uma opinião formada sobre a pena capital e não sou hipócrita ao reconhecer isso. Tenho, claro, uma tendência a ser contra a morte de quem quer que seja e acho o fuzilamento, algo que remete à barbárie. Mas, geralmente, opinamos sobre pena de morte à distância.

Confesso, passional que sou, que não saberia o que fazer caso alguém da minha família ou muito próximo a mim, fosse vitimado por um traficante ou outro tipo de bandido, qual seria minha reação. Então, peço desculpas ao leitor, mas a grande maioria opina sem sentir na pele. Já vi gente contra, mudar de ideia por circunstâncias que a vida impõe. E já vi gente espiritualmente elevada perdoar o assassino do próprio filho.

Observei uma certa comoção no caso do fuzilamento do brasileiro, pedidos de oração e até um sentimento meio nacionalista. E aí, perdoem-me. Até acho compreensível quem defenda que nada justifique uma pena de morte e nem pretendo entrar numa discussão dogmático-religiosa que, certamente, não teria fim. Mas, veja bem. Estamos falando de um traficante, como milhares que existem no Brasil e que viciam e matam nossos jovens e que geralmente não ficam presos tanto quanto deveriam.

Claro que Archer pagou com a vida e sua família sofreu. Mas e aí eu pergunto: e os jovens que ele viciou? E as famílias desses jovens?

Alguém certamente responderá que a pessoa se vicia porque quer. E eu responderei que alguém também trafica porque quer e, geralmente quer grana fácil, não importando os meios escusos para obtê-lo, nem as vítimas que se faz pelo caminho.

Há quem diga que a pena de morte não diminui a incidência de crimes. Talvez no Brasil, não. Na Indonésia a coisa deve pegar e eles não poupam nem os deles. Um cidadão indonésio também foi fuzilado.

Então. Antes de pensar em Archer, em sua vida e em sua família, pensemos nas famílias dos jovens que ele viciou. Ou, preferencialmente, pensemos nas centenas de crianças brasileiras que ainda morrem no Brasil, antes de completarem um ano, vítimas que são das nossas endêmicas mazelas sociais. Ou quem sabe, choremos pelos velhos brasileiros que são esquecidos pela sociedade e que passam fome no final de suas vidas.

Estes merecem as minhas lágrimas, as minhas preces, as minhas ações. Criminosos, não.

Não gastemos vela com defunto ruim.

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Os textos são de autoria do Jornalista Sylvio Micelli. Publicação autorizada com a citação da fonte. Tecnologia do Blogger.

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