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11 de fevereiro de 2014

Mais uma morte em vão


por Sylvio Micelli

Nossos políticos, que refletem boa parte da sociedade, são cínicos. Com as exceções de praxe, claro.

Com o falecimento de Santigo Andrade, cinegrafista da TV Bandeirantes, muitos políticos começam a aparecer para mostrar "sua dor" e cobrar "mudanças na lei".

A morte de Santiago vai resultar, infelizmente, em nada. E sabem por que?

Porque no Brasil é assim. Quando acontece uma tragédia, uma catástrofe ou qualquer coisa nessa linha, há uma baita mobilização como a querer a fechar a porteira depois que o boi fugiu. O tema sangrará na mídia por dias a fio. Um monte de especialistas em tudo falará um monte de coisas em cadeia de rádio e TV. Petições online e outros tipos de mobilização vão ocorrer para, ao final, resultar numa catarse coletiva sem nenhum resultado prático.

Já cansei de ver, várias vezes, diversas coisas acontecerem e tudo permaneceu da mesma forma de sempre.

Há pouco mais de 10 anos, teve fim trágico o Caso Liana Friedenbach e Felipe Caffé, quando o casal de adolescentes foi assassinado na Grande São Paulo pelo então menor infrator Champinha.

Estava eu, no Senado Federal, durante as discussões que culminaram com a aprovação da Reforma da Previdência do primeiro mandato do governo Lula em 2003. Lembro-me, muito bem, que o então presidente do Senado, José Sarney recebeu Ari Friedenbach, pai da adolescente morta, com um pesaroso abraço fraternal.

O que de lá para cá mudou efetivamente?

Tim Lopes foi brutalmente assassinado. E o que aconteceu depois?

242 jovens morreram na Boate Kiss em Santa Maria, no ano passado. Vocês acreditam que as nossas danceterias, inferninhos, casas de espetáculo et caterva estão protegidas?

O menino João Hélio morreu depois de arrastado por carro. E depois?

A vida nos dá mártires que dão sua vida para a sociedade amadurecer.

Mas ao final, como ensinou Lampedusa em O Gatopardo, tudo será mudado, para permanecer tudo como está.

E teremos outras vítimas, outros fatos estarrecedores e quando os holofotes se apagarem, sempre voltaremos à nossa programação normal.

Descanse em paz, colega Santiago! Mas sei que sua morte será apenas uma a mais na estatística da minha profissão.


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Os textos são de autoria do Jornalista Sylvio Micelli. Publicação autorizada com a citação da fonte. Tecnologia do Blogger.

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