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2 de janeiro de 2014

De gigantes adormecidos a mensaleiros... 2013, o ano que (ainda) não acabou


por Sylvio Micelli

Muito bem. Estamos em 2014. Ainda naquele período que serve para fazer um reflexão do que fizemos e não fizemos e do que não pretendemos e pretendemos fazer no ano que se inicia em poucas horas. Tudo bem que muitas vezes a mudança de ano significa apenas mudar a folhinha pendurada na parece, mas vamos acreditar que tudo será diferente.

Considero-me, no geral, uma pessoa bem humorada. Sarcástico, até. Mas sempre busco ver as coisas boas. Ainda considero um copo pela metade, como um copo quase cheio. Isso pode ser bom ou ruim, dependendo do líquido, óbvio.

No entanto, acho que na mesma proporção que meus cabelos vão embranquecendo, torno-me cada vez mais um pragmático. Pois bem. As reflexões pessoais, cada qual deve fazer a sua.

Num ambiente macro, com os olhos voltados à sociedade, não dá para fazer boas referências a 2013 e a todos os fatos que deixaram suas marcas duras.

Mortes de mais de duas centenas de adolescentes numa boate do Rio Grande do Sul, manifestações que levaram milhares às ruas de todo o Brasil, mas nem sempre com um foco definido e até a mudança no principal cargo da Igreja Católica mostra-nos que o ano passado terá deixado uma lição a todos nós. Trata-se de um ano que ainda não acabou. E talvez nem acabe.

Tudo começou em janeiro, quando a ganância capitalista e leniência estatal pulverizaram 242 vidas numa boite em Santa Maria. O velho jeitinho brasileiro, aquele mesmo de deixar tudo para uma outra hora ceifou, quase no nascedouro, a vida de adolescentes que iniciavam seus estudos universitários na região. O incêndio na Boate Kiss fez com que fôssemos correndo fechar a porteira depois da fuga do porco. Mas e agora? Temos plena confiança nas casas de espetáculo frequentadas por nós mesmos, nossos filhos?

Por outro lado, janeiro trouxe-nos um herói tipicamente brasileiro. Não negando suas origens, o cantor Zeca Pagodinho foi ajudar as vítimas da enchente da sua querida Xerém, na Baixada Fluminense. Pelo visto, nossos governantes não aprenderam com a chuva, que neste final de 2013, início de 2014, já faz novas vítimas, principalmente no estado do Espírito Santo.

Mostrando que 2013 não veio para brincadeira, até o Papa pegou o boné e saiu de cena. Pressionado por escândalos financeiros e tendo sérios problemas com a perda de espaço para outras religiões, Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI abandonou o papado numa decisão quase inédita. A primeira aconteceu sete séculos atrás. Um mês depois, coube ao argentino Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, apreciador de churrasco, vinho e futebol, a árdua tarefa de comandar os católicos do mundo e uma série de problemas que o Vaticano tem sofrido nos últimos anos. Bergoglio logrará êxito? Isso só o futuro dirá.

Em junho, o Brasil foi tomado por manifestações, importantes sem dúvida, mas cabe a questão: a serviço de quem? O pontapé inicial teria sido o aumento das passagens de ônibus e metrô em São Paulo. E o bordão "Não são só 0,20 centavos" invadiu os noticiários, as casas, as almas... Mas será que eram apenas os tais 20 centavos que fizeram com que os preços da condução voltassem ao mesmo patamar anterior? Teria mais o que, efetivamente, envolvido? Num caldeirão de mafagafos, pudemos observar a disputa política entre defensores da extrema direita e da extrema esquerda. Vimos, também, os niilistas de plantão com a verborragia de um discurso da negação de tudo, algo que beira o fascismo.

Passeatas, manifestações e discursos "das ruas" ganharam os jornais e os lares, justamente à época da disputa da Copa das Confederações no País, torneio-treino para a Copa do Mundo. E, à medida que os holofotes foram sendo desligados, os discursos ficaram mudos. Muitas coisas aconteceram como o aumento do IPTU em São Paulo e para onde foram todos aqueles manifestantes?

Disseram que o "gigante acordou" mas eu, por exemplo, tenho lutado muito nos últimos 25 anos, desde a época estudantil. E assim como eu, conheço vários amigos, companheiros de garra e luta. E como assim? O gigante acordou? Eu nunca dormi.

E permanece a pergunta: quais são os reais interesses? Haverá grita durante a Copa do Mundo? Foi uma tentativa de sangrar os governantes? Uma antecipação do pleito que ocorre no próximo ano? Isso será respondido apenas agora em 2014.

Dentro da esfera econômica, o Brasil andou de lado. Continua tendo os piores índices de evolução dentre os países (eternamente) em desenvolvimento. Continua liderando as mesmas listas de violência, tributação, telefonia cara e ruim e por aí vai. A crise econômica na Europa também influenciou o mundo que esteve num baita mal humor, fazendo cair as ações de uma série de companhias, o que permitiu ao menos, as piadas com Eike Batista, o magnata do petróleo que (quase) virou um de nós.

Na política pouco avançamos naquilo que realmente importa. Reformas política, tributária, institucional, moral? Nada. Vimos um sujeito preconceituoso presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e, ah, sim... os mensaleiros foram presos. O Supremo Tribunal Federal virou uma grande ribalta para a disputa de ministros com egos inflados para decidir o que mesmo? E pergunto: e daí? Resolvemos nossos problemas? Nada.

O Brasil, até que já deu fartos exemplos de punir corruptos. Expulsamos um presidente da República, eleito pelo voto popular; colocamos juízes corruptos na cadeia e foram vários parlamentares que perderam mandatos e foram parar atrás das grades. Entretanto, todo o efeito punitivo e educacional que se esperava de tais medidas, parece não ter resultado em nada. O mau caratismo tupiniquim parece endêmico.

E 2013 continuará em 2014. Há mensaleiros que precisam ser presos. Há os mensaleiros tucanos que nem sequer foram julgados e enquanto isso, o Supremo Tribunal Federal não nomeia um interventor, por exemplo, para pagar os bilhões de reais devidos em precatórios alimentares, para que o aposentado do Serviço Público possa ter um final de vida digno.

No futebol, a situação também foi precária. Os principais campeões do ano - Atlético Mineiro e Cruzeiro - montaram bons times com aquilo que "não servia" aos outros. O futebol abandonou o eixo Rio-São Paulo. As equipes paulistas fizeram um campeonato brasileiro horroroso e uma delas estava amargando a série B. Para completar, pudemos acompanhar o desfecho patético do Campeonato Brasileiro no tapetão com a punição da Portuguesa e a manutenção do Fluminense, que caiu em campo, mas foi abençoado por homens engravatados, pela terceira vez na sua história.

O ano de 2013, aqui, também parece não ter terminado. Nada me tira da cabeça que a CBF pode armar um campeonato com 24 times em 2014. Sinceramente, não estranharia.

A Seleção Brasileira passeou na Copa das Confederações. Mas terá a mesma facilidade na Copa do Mundo? Que influências terá isso na vida e nas decisões que os brasileiros devem fazer nas urnas?

2013, então foi isso. O ano que uma médica foi acusada de matar pacientes e que um garoto foi acusado de matar a família de policiais, suicidando-se em seguida, dois temas prá lá de polêmicos.

Fechamos o ano também pobres politicamente. Perdemos Nelson Mandela, o último dos libertadores, aquele que foi considerado terrorista pelos neoliberais dos anos 80 e perdemos Hugo Chávez que, longe de entrar no mérito de seus atos, ao menos incomodava o imperialismo yankee.

Tchau, 2013. Já foi tarde. E que 2014 seja bem melhor.

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Os textos são de autoria do Jornalista Sylvio Micelli. Publicação autorizada com a citação da fonte. Tecnologia do Blogger.

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