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2 de novembro de 2013

Lou Reed: a life walking on the wild side

Reprodução
por Sylvio Micelli

Vivo de música. Não dela propriamente dita, o que me daria um grande prazer, mas ela me acompanha desde as cantigas de roda de infância. Fui cumprindo ciclos. Passei pelo pop, pelo rock setentista, pelos meus amados anos 80, pelo grunge e bebo muito do underground e das músicas eletrônicas sem frescura, que misturam o EBM (Eletro Body Music) com o Industrial. Ouço música em todos os locais possíveis e imagináveis.

Devo dizer que tenho um gosto musical bem amplo, mas obviamente não gosto de nada que seja pasteurizado, com raras exceções. Sempre fui chegado ao alternativo, ao menos comercial, ao submundo musical, sem nenhum preconceito.

As pessoas costumam perguntar a mim, qual a melhor banda de todos os tempos ou qual melhor disco etc. Sou meio avesso a estas listas que volta e meia são publicadas. Ou são muito pessoais ou são óbvias. Não há nenhuma novidade em colocar Led Zeppelin, Sabbath ou Queen no panteão da glória roqueira ou afirmar que Smiths, Echo & Bunnymen, The Cure e Depeche Mode formam o quarteto perfeito e absoluto dos anos 80 e do rock inglês que substituiu as festas da new wave do final dos anos 70 e começo dos anos 80.

Entretanto, há um cara diferente nisso tudo. E ele não foi melhor ou pior que nada. Foi único. Impossível copiá-lo, impossível classificá-lo.

Lewis Allan Reed, pisciano nascido no Brooklyn nova-iorquino, foi um cara à frente do seu tempo. Numa época em que a música se dividia entre Beatles e Rolling Stones, com o Doors e as encrencas de Jim Morrison dando o tempero, Lou Reed e sua guitarra criaram uma banda experimental que não estava nem aí para o lado comercial. Uniu-se ao artista plástico Andy Warhol, o mesmo que já definiu "que todos terão seus 15 minutos de fama" e abraçou o underground a partir do próprio nome da banda.

The Velvet Underground foi o reflexo direto da poesia de Reed, um cara talhado para viver "on the wild side", como ele imortalizou em seu maior sucesso. O primeiro disco, The Velvet Underground and Nico (1967), famoso pela banana fálica na capa feita por Andy Warhol trazia letras poucos convencionais para a época. Retratava temas ásperos como drogas, prostituição, sadomasoquismo e chocou o público tornando-se um insucesso comercial.

Há, porém, uma lenda que afirma que poucos compraram o disco, algo em torno de 30 mil cópias, mas quem comprou formou sua própria banda, o que fez reforçar a aura do Velvet como a grande influência de pessoas do quilate de Iggy Pop e The Stooges, do camaleão David Bowie, de Depeche Mode, Echo & the Bunnymen e Joy Division, bandas mais do que influentes e marcantes nos anos 80; e a lista permanece com Sonic Youth e Jesus and Mary Chain e suas guitarras distorcidas; Nirvana, Nine Inch Nails, Radiohead e até os mais modernos Strokes, Placebo e Coldplay.

Lou Reed foi a antítese do rock star. Chato de carteirinha, odiava entrevistas e tratava sua mística como algo enfadonho que ele lidava por obrigação. Foi um poeta "sujo" que ousou musicar suas letras. Não o entenderam nos anos 60 e 70. Nas décadas seguintes virou uma referência mundial, maior que muitas bandas de sucesso e morre como um mito.

Lou Reed nos abandonou na manhã do último domingo, dia 27 de outubro, aos 71 anos, uma sunday morning, que ele também imortalizou e que abre o primeiro álbum da banda.

Não tenho dúvidas de que, se houver céu, ele já está lá. Mas, claro, taking a walk on the wild side.



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Os textos são de autoria do Jornalista Sylvio Micelli. Publicação autorizada com a citação da fonte. Tecnologia do Blogger.

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