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14 de junho de 2013

Como cobrir uma greve na (grande) mídia

por Sylvio Micelli

Nessa quinta-feira, 13 de junho, os trabalhadores da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) paralisaram suas atividades. O motivo: a velha e boa luta por reposição salarial das perdas inflacionárias, aumento real e outras reivindicações correlatas.

Uma rádio de São Paulo, cujo nome omito por ainda ter pressupostos éticos, cobriu a mobilização desde as primeiras horas da manhã.

Mas "cobriu" daquela forma que já conhecemos.

A retórica é sempre a mesma. "A manifestação é democrática, mas prejudica a população e blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá"...

A pauta seguida pela emissora, e que deve ter sido seguida também por outras emissoras e mídias é sempre a mesma e eu nem sei porque ainda me surpreendo. Funciona mais ou menos assim:

1. Coloque um repórter na madrugada de uma greve de transportes e entreviste pessoas que comungam da mesma opinião que a editoria, ou seja, que a mobilização é democrática, mas que não é justo prejudicar a população que pode "se virar" contra os grevistas. Preferencialmente, entreviste o mais revoltado ou o mais sonado;

2. Faça escaladas retumbantes e repetidas na programação, cada vez que chamar os repórteres, pois agora não será apenas o primeiro, para falar dos problemas causados para a população e o caos no trânsito que já é normalmente ruim;

3. Entreviste o presidente da CPTM e ouça sua versão "oficialista";

4. Esqueça da primeira lição do bom Jornalismo, que é ouvir os dois (ou mais) lados da história. Ou seja: não entreviste ninguém do sindicato da CPTM. Preferencialmente tente ligar para os responsáveis pela paralisação, para não criar uma crise de consciência, mas afirme que não conseguiu contatar ninguém.

Pronto: sua pauta sobre greve está perfeita, redondinha e pode ser divulgada em qualquer mídia (Rádio, TV, Internet ou sinal de fumaça).

Foi exatamente isso que aconteceu. E que acontecerá sempre.

É preciso entender que greve, sem prejuízos, não é greve. Greve é enfrentamento, sim. O cidadão comum é prejudicado, mas ele deve destinar sua ira àqueles que não cumprem a legislação e não aos trabalhadores que são vilipendiados, afinal, são todos trabalhadores.

No final da tarde, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) declarou a greve como não abusiva. Ou seja: os trabalhadores estão corretos em suas reclamações e o julgamento da questão será na próxima semana.

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Os textos são de autoria do Jornalista Sylvio Micelli. Publicação autorizada com a citação da fonte. Tecnologia do Blogger.

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