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19 de junho de 2013

As manifestações populares dos últimos dias e o seu contexto político

Avenida Paulista, São Paulo, na última segunda, 17 de junho - Divulgação
por Sylvio Micelli

Quando era moleque, e já faz tempo isso, minha mãe dizia-me: "quando você observar muita gente indo para apenas um lado, pergunte-se a serviço de quem eles estão e a serviço de quem você está"... Ela dizia-me isso no sentido de observar as maiorias que, nem sempre, em que pesem ser maiorias, caminham pelo lado que eu gostaria de caminhar.

É com este espírito que passo a analisar todas as mobilizações ocorridas nos últimos dias em São Paulo e em todo País, inclusive com repercussões e manifestações internacionais e até em cidades do Interior do Brasil. Faço isso após conversar com muitos amigos mais e menos experientes que eu, povo que curte política (e eu conheço muitos), com o intuito de entender o que vem ocorrendo nas últimas duas semanas e o que isso servirá, efetivamente, a nós mesmos e ao País.

Após este intróito, segue o jogo:

1. Todas as manifestações ocorridas até aqui são maravilhosas e legítimas. Acho muito saudável balançar as estruturas, espanar o pó das oligarquias ainda reinantes em nossa varonil nação. Confesso que desde as "Diretas, Já!", não via tamanha mobilização e alegria nas ruas. Gente de todas as idades resolveu tirar as nádegas da cadeira e realizar atos que pautam a desesperada e exasperada grande mídia. Sei que neste caminho tivemos o impeachment de Collor, mas vejo naquele movimento de 1992 interesses difusos, também relacionados à grande mídia, envolvidos na mobilização. Foi importante? Sim, sem dúvida. Houve participação popular? Muita e fundamental. Collor deveria ter sido expulso? Para mim, não teria nem sido eleito... Mas a mobilização dos últimos dias tem um certo quê de pureza, que eu só tinha visto, ainda moleque, em 1983, 1984.

2. Mas qual é o real intuito de tamanha mobilização? Muitos querem crer que os R$ 0,20 do aumento nas passagens do transporte público em São Paulo teriam sido a gota d'água num copo já cheio com excesso de impostos, malversação de verbas públicas, corrupção impune etc etc e ponha etc nisso. Tanto que o mote da campanha virou: "não são apenas 20 centavos, mas luta-se por direitos". Ok. Até aí tudo bem. Realmente assino embaixo. O transporte no Brasil é caro e ruim. Pagamos impostos demais e temos muito pouco na qualidade dos serviços públicos, a corrupção esteve em todos os governos pós-Collor, ou seja, todas as postulações são concretas.

3. Há, porém, um problema. Ao se mostrar um movimento sem líderes definidos, a coisa pode ficar fora de controle e toda esta luta maravilhosa ser jogada na lama, por conta de um vandalismo que não se explica e claro, todos sabemos que não partiria das pessoas sérias envolvidas na história. A grade mídia, hegemônica e a serviço do Poder e do Capital, vai buscar deslegitimar tudo o que foi feito por causa de meia dúzia de imbecis, que precisam ser rechaçados do movimento. São infiltrados? É bastante possível. Não há controle? Claro que não. É impossível conter uma turba com milhares de pessoas. Mas algo precisa ser feito. E rápido.

4. Outra questão é o elemento político-partidário que os representantes dizem não querer no movimento. Particularmente, não acredito em tamanha mobilização sem uma bandeira política ou uma mínima ideologia. É possível que os mentores de todas essas mobilizações tenham suas convicções partidárias, mas que estejam embuídos de um espírito maior e isso é muito louvável. Mas, cedo ou tarde, isso irá aflorar de alguma forma. Além disso, a mobilização é contra quem mesmo? Já vi amigos petistas que vão às ruas contra o governo paulista de Geraldo Alckmin. Já vi amigos tucanos que vão às ruas contra Dilma Rousseff, Lula e companhia. E tenho amigos que participam da mobilização e lutam contra tudo e contra todos. É o que? Anarquia em sua mais pura essência? Faremos impeachment de Alckmin e Dilma (já recebi petições eletrônicas em relação a ambos)? Há um tertius a procura de ser um novo salvador da pátria? Há uma tentativa de desestruturar o país e ofertar um "golpe democrático" como aconteceu com Fernando Lugo no Paraguai?

Resumindo: vivemos um período de exercício pleno de cidadania e democracia e isto, repito, é maravilhoso e ímpar no Brasil. Podemos sim estar dando os primeiros passos rumo a uma "primavera tupiniquim". Mas ainda há lacunas a serem preenchidas e respostas a serem dadas.

Um grande jornalista de Brasília, com o qual conversei ontem, sentenciou-me: "tudo isso que está acontecendo é o somatório de duas coisas: a) há um cansaço do povo em relação aos políticos, porque perdeu-se referências sobre situação e oposição. Como PT e PSDB estão muito próximos, apesar de dizerem o contrário, e como temos uma oposição desmobilizada, começou o jogo político de 2014 e o primeiro ponto é ocupar a oposição contra o status quo reinante. Quem se mostrar diferente do que está aí pode entrar na ribalta política; b) temos uma nova classe média vinda das classes D e C. Eles atingiram um nível social e econômico, que não querem abandonar, mas agora cobram a ausência de políticas públicas em educação, saúde, saneamento, transporte etc. Anexe a isso o perigo inflacionário que volta a rondar a nossa economia. E isso é só o começo".

Enfim, quem viver verá e deixo minha contribuição ao debate.

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Os textos são de autoria do Jornalista Sylvio Micelli. Publicação autorizada com a citação da fonte. Tecnologia do Blogger.

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