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31 de março de 2013

Marcos Feliciano e o fundamentalismo imbecil

por Sylvio Micelli

Todas essas discussões que tomaram conta do País, a partir do momento que o deputado Pastor Marcos Feliciano (PSC/SP) assumiu a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados é prova clara e irrefutável, de que vivemos uma disputa hegemônica e fundamentalista no Congresso Nacional. Alguns afirmam que o berço das discussões é a tramitação do Projeto de Lei da Câmara (PLC) nº 122/2006, de autoria da deputada federal Iara Bernardi (PT/SP) e que dá à homofobia a mesma qualificação criminal do racismo.

Pois bem, meus caros. Todo fundamentalismo é imbecil e não importa de quem vem e para onde vai. O fundamentalismo pode ser religioso ou ideológico. Isso, pouco importa. A partir do momento que eu quero forçar a barra, perco a razão e minha opinião de nada vale... Isso serve para o Al-Qaeda, que matou 3 mil inocentes "contra o imperialismo americano", serve para os (neo) nazistas e serve para a Gaviões da Fiel. Coexistir, antes de mais nada, é permitir a livre manifestação de ideias e conceitos, sem "pré-conceitos". Quando eu quero cercear isso, sob qualquer argumentação, estou errado. Simples assim.

Ao longo dos meus 40 e poucos anos, já vi brancos homofóbicos, racistas... Já vi negros homofóbicos, racistas... Já vi gays heterofóbicos, racistas... Já vi lésbicas que acham que não são homossexuais e la nave va, como nos ensinou Federico Fellini.

Acho que homofobia e racismo são sim os mesmos crimes. Não existe diferença técnica, ideológica ou filosófica se eu ofender um negro por sua tês morena ou um gay porque ele sente amor e prazer com pessoas do mesmo sexo. E devo supor que a regulamentação desta lei saberá definir o que é dizer "não gosto, mas respeito" ou "eu odeio essas bichas-loucas".

Marcos Feliciano, que não tive o prazer (ou desprazer) de conhecer pessoalmente, faz parte de um grupo político perigoso que deseja impor um comportamento à sociedade pela via religiosa. Seria mais fácil eles lerem a Bíblia. Seria mais fácil seguir como Jesus agiu e deu a outra face. Seria até mais simples aprender a inesquecível lição de Voltaire: "posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la." Mas optam pelo fundamentalismo religioso a impor regras para o conjunto heterogêneo do povo brasileiro desrespeitando suas minorias e a livre manifestação de ideias. Sem entrar no mérito, parece-me que preferem infestar canais de TV e estações de rádio berrando coisas que Jesus não proferiu e defendendo dogmas que passam longe do motivo d'Ele ter estado aqui na Terra, apenas para arrecadar fundos para a sua "guerra santa".

Politicamente, a eleição de uma figura controversa como Feliciano para presidir uma Comissão, cujo público-alvo não é do agrado do pastor, é fruto de um monstro chamado "governabilidade". Em nome dela, as parcerias mais loucas, paradoxais e extravagantes ganham vida, apenas pelo projeto de poder.

As religiões precisam rever muito de seus (pre) conceitos. Não a toa que o Papa Bento XVI pediu o boné, além das questões de corrupção e pedofilia e espero que o Papa Francisco dê explicações a todos. Não a toa que observamos todas essas discussões de Feliciano e do deputado federal Jean Wyllys (PSOL/RJ), como parte da ribalta política, cada qual defendendo o seu quinhão.

Eu não tenho vocações homossexuais, mas respeito a opção dos que fizeram. E posso dizer que tenho alguns amigos, de ambos os sexos, que enveredaram por este caminho e, havendo respeito mútuo, não há nenhum problema de convivência. Eventualmente, caso haja algum problema de relacionamento, acho que uma postura clara e uma conversa franca sobre as escolhas de cada um, resolvem o problema.

Quem muito se preocupa com o homossexualismo do outro, deve ser por medo de assumir o próprio.

Abaixo os fundamentalistas, quaisquer que sejam suas ideologias.

Liberté, Égalité et Fraternité! Toujours!

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