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1 de fevereiro de 2013

Renan Calheiros e nossa política a la Dorian Gray

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por Sylvio Micelli

O senador alagoano Renan Calheiros foi eleito nesta sexta, 1º de fevereiro, presidente do Senado Federal do Brasil. Ele é reconduzido ao cargo que teve de renunciar, quase seis anos atrás, por receber dinheiro de lobbistas que infestam o Congresso Nacional. A grana era usada para pagar despesas pessoais de Renan com sua amante, a jornalista Mônica Veloso e a filha desse relacionamento. A questão era mais ou menos assim: ele faturava a jornalista e mandava a conta para o povo tupiniquim pagar.

Mas para explicar a volta de Renan ao proscênio nacional usarei sete personagens: seis reais e um fictício. Além de Renan, temos na receita Fernando Collor, Lindbergh Farias, José Sarney, além de Cazuza e Renato Russo. Tudo isso regado a Dorian Gray, personagem criada pelo maravilhoso Oscar Wilde.


Collor, Renan e Sarney

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José Renan Vasconcelos Calheiros saiu da política alagoana para a nacional tutelado por seu padrinho Fernando Collor. Quando Collor candidatou-se a presidente da República em 1989, Renan foi seu assessor de campanha. Com a eleição do alagoano, Renan foi indicado para ser líder do governo Collor na Câmara dos Deputados. Apesar do impeachment de Collor em 1992, Renan não sofreu muitas consequências políticas. Dois anos depois seria eleito senador pelo seu estado.

Em seus dois mandatos senatoriais (1995 a 2010), Renan foi "adaptando-se" ao governo de Fernando Henrique Cardoso e depois ao governo Lula e Dilma Rousseff. Sempre esteve presente às fartas mesas das decisões nacionais, coligado a pessoas poderosas em especial José Sarney, cuja história, todos sabemos. Tanto que Renan sucedeu Sarney na presidência do Senado em 2005 e agora, em 2013. No melhor estilo enganador "bom-moço caçador de marajás", herdado de Collor, escondia escândalos de corrupção que eclodiu com o "Renangate" em 2007, que até foi bem explorado pela mídia, mas resultou em... nada.

O país inteiro soube de seu relacionamento extra-conjugal e das corrupções a ele inerentes. Mesmo assim, Renan não foi cassado do cargo de Senador. Em seu julgamento ele disparou verdades incômodas contra outros senadores e a instituição o salvou da degola. Saiu da presidência da Casa como bem quis, após um período de licença-médica e a renúncia ainda no final de 2007. Cumpriu seu mandato até o fim, sendo reconduzido à liderança do PMDB em 2009. Foi reeleito Senador em 2010 e tem mandato até o início de 2019...


A política Dorian Gray

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Em nome da tal "governabilidade", independente das bandeiras partidárias, a política tem criado situações híbridas. Os políticos transformaram-se em monstros de si mesmos. Não há mais claras definições de esquerda e direita, exceção feita a poucos parlamentares que se comportam como Dom Quixote a tourear moinhos de vento e acabam, até inocentemente, dando respaldo ao teatro de nossa democracia ainda imberbe.

A eleição de Calheiros remonta-nos a um grande clássico da literatura universal. Escrito pelo magnífico Oscar Wilde, "O Retrato de Dorian Gray" conta a história de um grande narcisista (Dorian) que ao ter seu retrato pintado, o que era muito importante para a época (a obra é do final do séc. XIX), faz a promessa de que entregaria tudo, até mesmo sua alma, permanecendo jovem eternamente. Seu desejo se realiza e Dorian não mais envelhece, mas todos os pecados que comete e a idade que chega são demonstrados no retrato, que se torna algo monstruoso e apavorante. Dorian decide esconder o retrato no sótão de sua casa para que ninguém veja no que ele efetivamente se transformou. O retrato revela o monstro que ele realmente era.

Comparações a parte, a política brasileira transformou-se nisso: um ou vários retratos a serem escondidos nos sótãos do poder.


Lindbergh, Cazuza e Renato Russo

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Em que pese parte da sociedade ter se levantado contra a postulação de Renan ao cargo, inclusive alguns sites oxigenados e independentes, as manifestações são feitas à distância. Em tempos de redes sociais é mais fácil assinar petições eletrônicas ou mandar e-mails para os amigos, com a falsa sensação de ter feito algo. A "Geração Coca-Cola" tão bem definida por Renato Russo observa, bovinamente, o desenrolar de capítulos e mais capítulos de nossa política corrupta sem que aja, de fato, contra ela. Nossas crianças não derrubam mais os reis e poucos fazem comédia no cinema com as leis. Boa parte prefere "não se interessar por política". Lava as mãos optando por não assumir as responsabilidades inerentes a uma sociedade tida como democrática.

Hoje, o senador petista Lindbergh Farias, certamente deve ter colaborado com seu voto para eleger Calheiros. Não custa lembrar, que ele capitalizou sua carreira política, duas décadas atrás, ao liderar o movimento estudantil dos "caras-pintadas" no impeachment de Collor, mentor de Renan, quando Farias era presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Não há mais caras-pintadas e como ensinou Cazuza, "as ilusões estão todas perdidas".

A sociedade brasileira merece ter Renan presidindo o Senado. Brasília transformou-se no retrato de uma sociedade degradada. Plagiando o "excelentíssimo senador" em seu discurso de posse, a "antropofagia institucional" está aí. Há muito tempo. Só não ver quem não quer.


Para reflexão... Ad infinitum, os vídeos de "Geração Coca-Cola" da Legião Urbana e "Ideologia" de Cazuza

5 comentários:

  1. Sylvio, parabéns pelo artigo, sobre a eleição de Renan Calheiros, como Preesidente do Senado. Abraço.

    José Carlos Galbiatti Costa

    ResponderExcluir
  2. Caro Silvio!!!!

    Esta é uma das reflexões mais profundas que já li sobre os recônditos da república.
    Oscar Wilde ficaria estupefato com o rumo da sua obra e tamanha a transformação dos retratos dos políticos desta nação...
    É cediço que o abisso da degradação constatada em Brasilia remonta a épocas muito anteriores à vinda de Renan Calheiros, José Sarney, Fernando Collor (curiosamente ressuscitando sua vida política...) etc...
    A ausência de renovação nos quadros parlamentares e a falta de cultura e conhecimentos da população advinda de decênios de alienação intelectual nos traz a mais absoluta impossibilidade de detecção do verdadeiro agente etiológico para tamanho degrado.
    Infelizmente a geração coca cola e os seus jovens caras pintadas não trouxeram grandes transformações na sociedade política e o único beneficiado com tudo isto foi o Sr. Lindbergh Farias, o qual, hodiernamente, parece-nos mais habituado ao sistema e a um curioso fenômeno de mimetismo que assola toda a classe parlamentar desta nação.
    Intelectualmente a juventude reacionária da década de 60 parecia denotar maiores traços de intelectualidade, contudo, hoje, no papel de governantes e parlamentares acabaram inumando seus ideais primitivos e sucumbiram aos prazeres e benesses inerentes ao poder.
    O Congresso Nacional e as diversas esferas governamentais padecem de sentimentos de ética, decoro e respeito pelo povo que dedicou seu voto sagrado à políticos e tecnocratas pouco ou nada afinados ao bom trato da coisa pública.
    Os parlamentares mencionados no artigo em testilha nada mais fazem, senão manter-se em consonância à sua ambição desmesurada.
    Na esteira do quanto exposto, o mesmo Oscar Wilde disse uma vez: "A ambição é o refúgio do fracasso"... (Podiamos refletir sobre esta frase também...)

    Abraços
    João Portos de Campos Júnior

    ResponderExcluir
  3. Caro Sylvio,

    Algumas e poucas considerações de um colega jornalista aposentado:

    1) Caras pintadas eram uns garotos de classe média que nunca abraçaram a política depois dos ato, atos, aliás o principal deles reuniu pouco mais de 300 mil pessoas, uma vez que ali onde disseram haver um milhão seria impossível reunir tal
    número. Enfim, Collor não tinha sustentação de grandes partidos e dançou. Por motivos idênticos Sarney não dançou, nem FHC quando comprou a reeleição.

    2) Deploro a figura de Renan, que não é produto nem da política e nem da corrupção e sim do nosso arcaico sistema político. Renans nasceriam - talvez - em menor número se viesse a reforma política, que não veio com FHC, nem com Lula nos
    dois mandatos, nem com Dilma agora e nem virá no segundo mandato de Dilma.

    3) Como funcionam os parlamentos e as casas políticas de países ditos de primeiro mundo? Por que Berlusconi pode voltar? Por que a dificuldade em se apurar o mensalão espanhol? Os escândalos do PC chinês? Os lobbies bancários e imobiliários
    nos EUA? Qual sistema que não agrega párias na formação dos governos, para assim garantir a sua maioria? Esse sistema existe?

    4) Quanto ao nosso país, tem buscado ampliar os instrumentos que possam minorar os escândalos e a corrupção, o que é claro é tarefa impossível. Os quadros políticos, de vez em vez, nem sempre, mas também se renovam, a exemplo de uma
    presidente mulher e resoluta, Como Dilma, e um quadro competente e alentador para São paulo, como é Haddad. Como o deputado Jean Willis, uma grata surpresa.

    5) Apesar de tudo, o país vai bem e o ano de 2013 deve ser melhor.

    6) O que vai mal realmente é a manifestação popular, que não existe, é amorfa. Vou passar o 1 de maio em Lisboa. São esperados 2 milhões de pessoas em um grande movimento. Vamos lá ver.

    7) Sylvio, você já foi candidato por um partido que eu não reconheço como importante para a vida brasileira. Mas você esteve lá e se eleito seria um bom parlamentar, com certeza. Não caberia a ninguém julgar sua escolha. O sistema partidário te
    levou a estar lá, naquele momento.


    Abração.

    Carlão.

    Carlos Mello, jornalista

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Meu caro Carlão... Saudade de você. Veja se, vez em quando, visite os pobres no SJSP.

      O que de fato me incomoda é saber que tudo isso é um ônus ou um preço alto a ser pago pela democracia que vivemos, ou ao menos imaginamos viver.

      Vez em quando postam-se nas redes sociais que os militares "apesar dos pesares" não eram corruptos e que deram o golpe justamente para evitar isso.

      E aí eu pergunto: será que lutei tanto tempo (e permaneço na lida) em vão? Será que aquele moleque imberbe que virou representante do "2º Colegial" no Caetano de Campos de 1988 estava errado? Será que aquele jovem que iniciou no Jornalismo em 1990 na Braz Cubas e que deitou nos trilhos do trem para evitar aumento de mensalidades era um imbecil?

      Será que aquele recente pai de família que subiu num caminhão em 2001 para comandar 80 dias de greve e tentava a seu modo administrar uma grande catarse coletiva fez tudo isso em vão?

      Como diria Raul... Quando tudo isso acabar, o maluco sou eu.

      Abs e apareça

      Traga vinhos do Porto.

      Sylvio Micelli

      Excluir
    2. Meu caro, não desanime.

      A democracia é espinhosa, não é, quase nunca, justa e ao longo da história ela, a democracia, vem repleta de atos de corrupção: na Europa (vide Espanha), nos EUA, Japão, nos países latinos que se livraram de ditaduras.

      E fique tranquilo, não houve poder mais corrupto que o militar no Brasil, que enriqueceu empresários, criou os impérios Marinhos da vida, bolou Transamazônica, vendeu um milagre que não havia, maquiou inflação, torturou e matou. Estamos certos em não querer tais tempos de volta. Melhor é a democracia, que é imperfeita e, por vezes, injusta.

      Minha análise é de que o país, a seu tempo histórico, melhora a passos lentos, mas melhora a olhos vistos. E não falo de partidos ou líderes. Mas isso é lento. Vai demorar ainda três, cinco, dez décadas. Nossos netos estarão aqui pra ver.

      Mas somos ingênuos, sempre fomos, e esse é o nosso erro.

      Continuo torcendo por vocês aí no Sindicato, mas não vejo mais motivo para dele participar. Uma bebedeira de bar ou almoço fora daí será sempre um prazer. Devo parar de pagar o sindicato a partir do próximo mês e serei excluído automaticamente em algum momento, idéia que me agrada.

      Alguns de meus conceitos hoje sobre Assessoria de Imprensa, diploma, faculdades, entre outros colidem com as idéias do Sindicato e de muitos amigos sindicalistas jornalistas. Em respeito a todos opto por guardar essas opiniões a debatê-las publicamente. Tenho também alguns desencantos que remetem a um período anterior à sua chagada ao sindicato, você não os sabe. Mas igualmente guardo essas outras críticas, pois de nada me interessa debatê-las com os diretores de agora. Não somaria nada nem ao meu futuro de aposentado e nem ao meu passado de jornalista.

      Assim o faço em respeito aos amigos e ao trabalho que tentam desenvolver. Mas guardo por todos da Comissão o carinho de sempre.

      Abração e bom trabalho. É bom tê-lo aí na Entidade. Continue firme.

      Carlão.

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Os textos são de autoria do Jornalista Sylvio Micelli. Publicação autorizada com a citação da fonte. Tecnologia do Blogger.

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