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2 de agosto de 2012

#London2012 - Olimpíadas, mídia e o vazio da informação

Reprodução
por Sylvio Micelli

Transcorrida quase a primeira semana da disputa olímpica em Londres, a mídia nacional permanece cumprindo à risca sua função. Não informa, muito menos forma opinião. Age como torcedora. Coloca milhões de dados para abastecer estatísticas e ponto.

Calma, leitor. Não enlouqueci! Ao menos, não ainda. Mas a mídia brasileira não é treinada para uma competição desse porte e tudo fica parecendo mesa redonda de pós-jogo de futebol.

Comecemos pela abertura do evento, uma tradicional e enfadonha cerimônia de quatro horas. Enquanto a Record se esforçava em sua primeira transmissão deste naipe, a Sportv trazia narradores de futebol para cobrir o evento e Galvão Bueno - "especialista em tudo" - de contrapeso.

Quando o Brasil começou a disputa com o pé direito, ao conquistar três medalhas no primeiro dia, o nacionalismo exacerbado de muitos deu início a efusivas loas ao governo. Cheguei a ouvir que o Jogos Panamericanos do Rio, cinco anos atrás (muito criticado à época), fomentou o crescimento brasileiro no esporte. Cálculos entusiasmados "informavam-me" que o país deveria bater o seu recorde na disputa e já projetavam conquistas para o Rio, daqui quatro longos anos.

Narradores-torcedores e ex-atletas comentaristas só faltavam gritar "Ninguém segura este País", famoso bordão utilizado pelo governo no auge da ditadura militar.

Os dias foram passando, as medalhas secaram e o discurso foi mudado. Quando eu escrevo, o Brasil permanece com as mesmas três medalhas.

A mídia voltou a cobrar investimentos no esporte, revisaram o número possível de medalhas e entoaram o mantra de que o país deve se preparar muito para a disputa em 2016.

Claro que as transmissões devem conter emoção. Mas o equilíbrio ainda é fundamental.


Culpados?

Que há responsabilidade do governo federal e dos governos estaduais em nosso "fracasso" olímpico, não há dúvidas. Isso é endêmico e histórico no Brasil, o que sempre deve ser lamentado, ainda que algumas empresas estatais patrocinem alguns atletas e/ou modalidades. Falta infraestrutura, falta treinamento, falta vontade e, óbvio, o resultado será pífio como de costume, se considerarmos a dimensão continental de nosso país.

Há, entretanto, uma parcela de responsabilidade de própria mídia. Jornalista esportivo no Brasil é 98% futebol. E só. Há um ou outro profissional que se especializa em outras modalidades, mas são raros e geralmente são os mesmos que estão na TV, rádio, jornal, Internet.

Quando ocorre um evento desse porte tudo "vira" futebol e para não ficar tão feio, ex-atletas são chamados como connoisseur.

O basquete feminino no Brasil está ruim? Sim, está. E quando é que você viu uma competição de basquete na TV aberta ou um torneio patrocinado por um banco ou rede de supermercados em horário nobre?

O voleibol feminino está caindo pelas tabelas? Está numa fase irregular. Mas será que vimos alguma competição, divulgação, que seja em âmbito nacional ou só lembramos disso há cada quatro anos?

Os esportes individuais, então... Melhor nem comentar. São verdadeiros herois, sem apoio, sem recurso, sem nada, que se arvoram a ir para outro país, representar a sua terra.

Sendo assim, um somatório de fatores indica que o Brasil ainda está no terceiro mundo das práticas desportivas. Tudo começa com a inoperância estatal e termina com o silêncio da mídia que só divulga, aquilo que dá retorno e ainda coloca o futebol, por exemplo, às 10 da noite para não atrapalhar a novela.

Depois, não adianta reclamar que o Brasil, de novo, será um mero sparring na disputa olímpica.

O que vale a pena, até aqui, é a sempre competente cobertura das rádios, aí sim, com mais informações e as capas do diário carioca, Meia Hora, sempre impagáveis.

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Os textos são de autoria do Jornalista Sylvio Micelli. Publicação autorizada com a citação da fonte. Tecnologia do Blogger.

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